25 de set de 2008

O paraíso fiscal da “santa” sé

A nova ordem mundial de Baha’u’llah trocará em breve a corrupção financeira envolvendo as instituições eclesiásticas, e bem como suas intrigas internas, centralizando a economia mundial através da Casa de Justiça e Guardiania, ou seja, a besta de dois chifres que é responsável pela criação da nova economia (a marca da besta):
"Em que sentido e de que forma esta Ordem estabelecida por Bahá'u'lláh, que aparentemente nada mais é que uma réplica das instituições estabelecidas no cristianismo e no islã, difere destas? Não sãos as instituições gêmeas da Casa de Justiça e da Guardiania” (do livro A ordem mundial de Baha’u’llah).


A Santa Sé, como paraíso fiscal, é muito mais segura que as Ilhas Cayman, e, se Daniel Dantas usufruísse de conhecimentos certos no Vaticano, com muitas probabilidades a Operação Satiagraha teria abortado ao nascer. O Instituto para as Obras de Religião, ou como todos o conhecem: IOR, este é o nome do banco do papa, que concede aos seus selecionadíssimos clientes juros mínimos de 12% ao ano, a garantia, além da segurança do capital, de proventos com risco zero, impensáveis no restante mundo ocidental, um anonimato blindado no caveau da torre onde se localiza a sede central do Instituto, com os seus 5 bilhões de euros.




Nos últimos 30 anos, o IOR esteve envolvido em todos os escândalos que assolaram a Itália, mas nunca nenhum juiz solicitou uma investigação, nem de rotina, para procurar compreender, caso houvessem, quais as responsabilidades dos banqueiros vaticanos. Não, não é uma ficção científica, mas apenas algumas revelações do La Questua, ensaio que há meses lidera as estatísticas de vendas na Itália, embora seja ignorado pela maioria dos mass media.




No entanto, o volume é o fruto de anos de pesquisas realizadas por Curzio Maltese, jornalista investigativo do diário La Repubblica que há tempo indaga teimosamente sobre esses temas, batendo contra a parede de borracha das autoridades eclesiásticas. Para compreender como seja possível o Vaticano ser um paraíso fiscal superior às Ilhas Cayman, ou por que um quarto dos imóveis de Roma é de propriedade do Vaticano, e totalmente isentos de impostos, ou ainda para verificar como o Estado italiano gasta muito mais para manter a Igreja do que com sua classe política, CartaCapital entrevistou o autor do best seller que daqui a alguns dias será publicado também na Alemanha, pátria de papa Ratzinger.




CartaCapital: A torre com o único caixa eletrônico no interior do Vaticano, citada em seu livro, o senhor a viu?


Curzio Maltese: Sim, e pode ser vista também fora dos muros do Vaticano. É uma torre de 1400 muito bonita e sugestiva, no interior da Santa Sé. Mas é também muito misteriosa. É uma arca de mistérios que se arrastam há dezenas de anos. Principalmente desde os anos 70, quando o monsenhor Paul Marcinkus, célebre pela frase “não se governa a Igreja com as Ave-Marias”, começou a dirigir o IOR.




CC: Quais mistérios?


CM: O IOR é responsável de todos os escândalos italianos, e não somente de uma das maiores trapaças do sistema bancário europeu, ou seja, a falência do Banco Ambrosiano. Porque, em seguida àquilo, houve Mani Pulite, com as porcentagens Enimont, e as falências Parmalat e Cirio. Até no futebol, quando houve o escândalo dos juízes debaixo da batuta do diretor-geral da Juventus, Luciano Moggi, dois anos atrás, aparece à sombra do IOR. Mas o IOR é ligado também à lavagem, principalmente do dinheiro da Máfia. Até há quem afirme que os grandes bosses de Corleone, Totò Riina e Bernardo Provenzano, investiram no IOF.




CC: Certo, já que o arrependido Francesco Marino Mannoia, considerado por Giovanni Falcone (do pool antimáfia, assassinado em 1992) tão confiável como Tommaso Buscetta (o arrependido mais célebre), e que Riina mandou matar alguns anos depois, confessou ao juiz que o dinheiro da Máfia foi depositado durante anos nos caixas do IOR. Por que ninguém controlou?




CM: Teoricamente, seria possível pedir por rogatória e, realmente, isso nunca aconteceu. O IOR é uma entidade central do Vaticano, protegido por extraterritorialidade, e o pedido de rogatória de qualquer magistrado italiano teria de passar pelo Ministério do Exterior. Muito bem, na Itália, o ministro do Exterior dotado de coragem bastante para assinar uma rogatória ao Vaticano deve ainda nascer, donde tudo se evapora no absoluto mistério, mesmo se alguns casos voltam à tona pontualmente gerando lendas.




CC: Por exemplo?




CM: Por exemplo o caso de Emanuela Orlandi, filha de um funcionário da Prefettura della Casa Pontificia, desaparecida em circunstâncias misteriosas no dia 22 de junho de 1983, com a idade de 15 anos, e que se transforma numa trama no interior do Vaticano. Verdade ou mentira? Na realidade não é possível determinar, porque já é impossível realizar qualquer investigação. Outra história famosa e misteriosa é a morte do papa Luciani. Conspiração verdadeira ou falsa? Também nunca foi possível ir ao fundo da questão, já que a atitude do Vaticano é sempre aquela de fechar-se a cada tentativa de verificação externa. Por isso desapareceram as anotações de João Paulo I feitas na mesma noite em que morreu, e que se relacionavam justamente com Marcinkus e o IOR, bem como não foi autorizada a necropsia. Essa escassa intimidade com a democracia acaba tornando-se um bumerangue contra o Vaticano.




CC: Podemos, pois, escrever que o Vaticano é o paraíso fiscal mais blindado do mundo?




CM: Sim, e é com certeza o menos indagado, porque no fim também os paraísos fiscais estão pelo menos na black list. E, quando se espalha o rumor, como por ocasião da falência da Parmalat, de que seus fundos estão depositados nas Ilhas Cayman, os acionistas começam a se preocupar. Sobre os fundos mais ou menos transparentes depositados no IOR, pelo contrário nada se sabe. Este é o problema. Sem levar em conta a atitude típica do Vaticano em tratar as relações com os outros Estados, principalmente com a Itália, como meras relações ao vértice, daquelas em que a opinião pública jamais é consultada.




CC: Mas o Vaticano e os bispos interferem de forma bastante pesada, nestes últimos tempos, quase todos os dias, na vida pública e na democracia italiana...




CM: Com toda certeza este é apenas um lado. Porém, por outro lado não aceitam nenhum tipo de indagação. A Igreja na Itália representa um poder que participa da vida democrática apenas do ponto de vista dos direitos, mas não dos deveres. Um poder que nem em sonho esclarece algo, nem por que o chefe do Bando da Magliana, a mais poderosa organização criminal que operou em Roma, seja sepultado na cripta da igreja de Sant’Apollinare, honra reservada a papas, cardeais e bispos.




CC: Voltando às relações entre alta finança e Igreja Católica, quais as ligações encontradas no decorrer da sua pesquisa?


CM: São muitas as pessoas próximas da Igreja Católica, ou mesmo ligadas diretamente, desempenhando papéis de grande relevância no mundo das finanças. Mas isso por si não é fonte de investigações judiciárias.


Na Igreja encontra-se de tudo, há os santos, há os especuladores. O problema é que os especuladores não são perseguidos no ambiente da Igreja. Há sempre uma justificativa. Já estouraram vários escândalos na Itália sobre fundos destinados à caridade, e de fato empenhados em outras finalidades. Assim como estouraram escândalos também no resto do mundo em operações financeiras relacionadas a ambientes eclesiásticos, a atitude do Vaticano é sempre aquela usada pelo “banqueiro de Deus”, Marcinkus, ou seja, uma total defesa baseada no desconhecimento. Nunca há aceitação das responsabilidades, como se, além do papa, fossem também infalíveis os administradores do IOR. Creio, pois, que seja uma péssima imagem, também para a religião católica, esta contínua mistura com o mundo dos negócios, mais ou menos disfarçada por intenções éticas.




CC: No seu livro o senhor descreve bem o poder de chantagem da hierarquia da Igreja Católica em relação à periferia, América do Sul incluída. Poderia sintetizar do que se trata?


CM: O máximo artífice dessa “estrutura de chantagem” foi o cardeal Camillo Ruini, cujo trabalho foi fundamental para o saneamento das finanças desarrumadas do Vaticano, depois da falência do Banco Ambrosiano, no começo dos anos 80. Isso foi facilitado pela introdução, em 1984, de um mecanismo através do qual o Estado italiano iniciou a devolução à Igreja do 8 por mil de seu intróito fiscal, imposto criado originariamente para pagar os salários aos sacerdotes católicos, mas que hoje supera em mais de dois terços esse objetivo, tendo levado para os caixas do Vaticano 887 milhões de euros somente em 2007.


É por isso que somente bispos e cardeais aposentados, não podendo mais obter dinheiro para as próprias dioceses, permitem-se fazer críticas. Todos os outros, de fato, são objeto de chantagem na relação pecuniária, do momento em que a decisão da distribuição do 8 por mil é realizada diretamente pelo Vaticano. Isso condicionou o debate interno da Igreja, principalmente na Itália, mas também no exterior, América do Sul incluída.




CC: O senhor calcula que um quarto do patrimônio imobiliário de Roma seja propriedade da Santa Sé. Por que não se valeu dos números oficiais do registro cadastral da capital?






CM: Porque não existem! Por mais que possa parecer escandaloso, nunca foi feito um recenseamento sobre o principal proprietário imobiliário italiano há 138 anos, isso é desde que existe o Estado unitário italiano com Roma capital. Creio que esse esquecimento enquadre muito bem a relação, pelo menos anômala, entre o Estado e a Igreja na Itália. Diferentemente de quanto foi feito em países tradicionalmente muito católicos, como Portugal e Espanha, onde muitos privilégios da Igreja foram abolidos. Até na Polônia abriu-se um debate sobre as relações entre Estado e Igreja, apesar da forte influência católica na luta anticomunista. Mas, por fim, também em Varsóvia hoje na aula de religião o aluno pode escolher entre cinco, enquanto na Itália há somente uma.




CC: Por que quando o Partido Democrata Cristão se desintegrou, por causa dos escândalos de corrupção revelados por Mani Pulite, no início dos anos 90, maiores benefícios foram concedidos ao Vaticano, com uma real rendição sem condições das instituições políticas italianas?


CM: Isso porque o Vaticano historicamente teve relações piores com os primeiros-ministros que eram realmente católicos, como Alcide De Gasperi, Aldo Moro e, recentemente, Romano Prodi, do que com os anticlericais, como Mussolini e Craxi, ou com personagens de poucas virtudes cristãs, como Berlusconi.




CC: A razão?




CM: Porque com estes últimos se negocia melhor, mesmo porque, no fundo, não há nenhum envolvimento pessoal, mas se cria uma espécie de troca. O governo concede benefícios econômicos para a Igreja, para ter desta apoio político. É o que aconteceu pontualmente com o fascismo, em seguida nos anos 80, principalmente com os socialistas, e agora com Berlusconi. Não se trata de discutir princípios, e sim de mera troca de interesses, políticos de um lado, e econômicos do outro.




CC: Falamos agora do governo Berlusconi. Onde a Igreja Católica poderia ulteriormente fazer valer a própria influência política?


CM: Com toda certeza, em primeiro lugar na área da saúde. Depois há também as Regiões, grandes fontes de financiamentos para clínicas e escolas privadas católicas. Outro setor em expansão é aquele do turismo. Desde o Jubileu de 2000 a Igreja está assumindo um papel muito grande no mercado.




CC: Também porque, por seu patrimônio imobiliário, o Vaticano não paga 1 euro de impostos. CM: Sim, e todas essas isenções fiscais, principalmente sobre o turismo, dão uma vantagem enorme na competição para as estruturas da Igreja, em relação aos hotéis privados. Os hotéis religiosos, por exemplo, não pagam nem o imposto municipal sobre o imóvel (no Brasil, o IPTU) nem impostos sobre o trabalho dos funcionários, podendo assim oferecer preços mais baixos em relação àqueles que não têm essa regalia, que, ao contrário, devem pagar impostos. Por isso o turismo religioso vive um boom, enquanto o comum está em crise. Cúmplice dessa situação é também a desvalorização do dólar em relação ao euro. Por exemplo: os hotéis religiosos são muito procurados pelos americanos, porque são mais baratos, e também porque estão localizados em lugares magníficos.




CC: O imposto do 8 por mil nasceu para pagar os sacerdotes, enquanto as freiras estão excluídas. Por quê?


CM: As freiras não recebem salário nem a aposentadoria, que é dada aos sacerdotes, isso porque não dependem da Conferência Episcopal Italiana. É este um sistema que opera uma grande discriminação entre os sexos.




CC: Um padre, pago pelos impostos do Estado italiano, quanto recebe?


CM: Varia dos 900 euros, aproximadamente, para um padre de aldeia ou do interior aos 2.500 para os bispos.




CC: No seu livro, o senhor cita muitas fontes de intelectuais católicos, mas nenhuma do IOR ou do Vaticano.


Por quê?


CM: Porque deles é por demais difícil obter-se respostas ou esclarecimentos. Porque não há nenhum interesse de parte deles em ter uma relação desse tipo com a opinião pública. A relação à qual estão acostumados é aquela que se baseia no monólogo. Consegui falar pessoalmente apenas com o chefe de Opera Romana Pellegrinaggi (Obras Romanas Romarias), talvez porque era mais jovem que os outros...